
Depois de tantas apresentações, os personagens de Mingau de Concreto estão sem perspectivas, cansados e de olhos encharcados de viver expostos ao sol e de dormir na rua, onde a luta para sobreviver parece fantasia. Eles marcharam, passaram fome, sede, frio até encontrar um teto-teatro: o Buraco Quente.
A montagem leva para a sala de teatro os personagens do espetáculo de rua Mingau de Concreto, que expressa a realidade marginal do centro de São Paulo. Para os atores, este é um momento de compreensão das diferentes formas de atuar em espaços fechados ou abertos. Sem perder suas características, os personagens encontraram novos movimentos e matizes de voz coerentes com o espaço da sala, o que possibilitou ao grupo voltar-se para uma dramaturgia mais definida e uma pesquisa de preparação do ator.
A COISA TÁ PRETA
Na aurora cinzenta da cidade agitos de taxistas chiados de portas de boates, gemidos de sexo, carne assando em espetinhos, rostos de travestis, putas e viados voltando cansados, vazios, depois de suas duras jornadas.
Crianças drogadas, aborígenes urbanos, executivos cheirados, policiais e gigolôs, todos esses personagens se misturam com o acordar da cidade, e pouco a pouco, desaparecem no meio da multidão que impulsiona este país.
Rua Aurora, boca do lixo, imorais, vulgares, obscenos que transitam são moléculas, átomos inofensivos perante a disseminação da corrupção, da violência, da falsidade. Onipotente Ibope, todos os poderosos reis e rainhas que você criou se curvam perante as mentiras mais deslavadas que a grana e o poder produzem.
Buraco quente é o território que criaram esses poderosos reis e rainhas e súditos, contaminando tudo, inclusive paisagens e personagens metafísicos.
Buraco quente não é a boca do lixo, é a Câmara Municipal que temos, é ver nascer e morrer crianças nas rua. Buraco quente é filhos, é vender orgãos de crianças, buraco quente é não ter trabalho, casa, comida; buraco quente é a Febem, é a mentira desfarçada de pastor ou cardeal; buraco quente é a violência policial. Buraco quente é ignorar que este país precisa de cultura, educação e saúde.
Que saudade de você, Aurora. Tua obscenidade chega a ser romântica.
Lino Rojas