
“Meu Teatro é jovem na medida em que se distancia dos pressupostos academicistas. E me distancio destes pressupostos quando me deparo com estes jovens a quem devo transformar em atores: indivíduos cuja capacidade de sobrevivência em meio às mais desafiadoras adversidades já constitui em si mesma uma exuberante representação.
Jovens que saem de seus bairros periféricos e enfrentam cotidianamente a dura tarefa de trabalhar e estudar com uma imensa alegria de viver. São os surfistas dos trens, os farristas dos fundos de ônibus, os que cantam, dançam e festejam sempre que se reúnem em grupos. E também produzem violência. É com estas forças que trabalho, sem descaracteriza-las, respeitando-as e nutrindo-me delas. Estes “jagunços de calças jeans e tênis nike” são capazes, com a força do próprio rosto, de explodirem as máscaras da Comédia Dell’Arte. E na desafiadora expressividade dos seus corpos, não servem as roupas dos cortesãos e reis de Shakespeare, tampouco as túnicas e togas do Teatro grego ou as capas e espadas do teatro medieval. Menos ainda as roupas lúgubres do teatro católico ou a alta costura e o prêt-à-porter que ficam muito mais adequados ao cinema e à TV. Estes jovens — frequentemente chamados de bárbaros —, se respeitados, podem transformar a cultura deste país em instrumento de emancipação e não de opressão como tantas vezes tem sido.
Não estou contra o teatro clássico, stanislavskiano, shakespeareano, brechtiano, o teatro do absurdo, o teatro antropológico e tantos outros teatro-adjetivos. O que penso é que a pesquisa moderna deve alicerçar-se sobre estes precursores para ser realmente moderna, para aproximar-se de um homem que reivindique sua realidade, sua liberdade, sua pessoa, seu ser, com a força que lhes fornecem todos estes autores. Só desta forma são necessários, inclusive porque não existe outra forma de manter suas ideias vivas”.
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